quarta-feira, 8 de junho de 2011

gota

tenho um homem-poema sentado, atrás de mim, nas minhas costas. é um poema feito homem, feito de fumo, sentado numa poltrona, no canto do quarto. não se mexe mas olha-me fixamente e com um sorriso pincelado. não se percebe bem os extremos do corpo. esfumam-se as mãos cruzadas nos joelhos e não tem pés porque o corpo evapora-se a partir das canelas para baixo. esse homem é quem me acompanhou toda a minha vida, enquanto fui gente. é o homem que não tosse quando lhe digo que "quero ter um filho hoje" mas me pergunta a seguir se eu quero que ele vá para a catequese, quando tiver idade. o meu homem-poema assemelha-se ao pessoa de "o ano da morte de ricardo reis". o meu homem tem sempre um poema para me responder. o meu homem-poema tem olhos azuis e impacienta-se com a vida quando não me tem no seu campo de visão, quando não me vÊ. tenho uma nuvem feita gente atrás de mim, no canto mais escuro do quarto e sempre que me volto para o ver, ele desaparece. por isso, desisti de olhá-lo de frente: sei que existe mas não vejo. é aquilo que eu amo, que desejo viver com. sou-lhe de uma fidelidade canina e creio no meu sentimento como se fosse um provérbio popular.

mas

vezes há, em que eu gostaria de o ver de frente. de lhe tocar. de lhe sentir o cheiro. de trespassá-lo com a minha língua. de o fazer gente como eu fui.de o dar á luz. vezes há em que o meu amor se cala e mesmo acompanhada com o meu homem-poema, eu me sinto sozinha.vezes há em que eu precisava de lhe ouvir a voz da garganta e não a voz da mente. vezes há em que eu almejo partilhar os meus pequenos sucessos e apenas tenho um saco de plástico do lidl insuflado de vento. não te minto e confesso: vezes há em que duvido, em que te questiono. dá-me por vezes, a raiva e estaco o meu olhar na poltrona antiga porque sei que não vais aparecer e tento convencer-me disso mesmo, mas não há tempo suficiente.



2'26/foz/

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