quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Gesta, porquê?

Abri o "Gesta".
- Estás maluca!
- Numa altura destas?!
- Não tens medo? Será uma boa ideia?
Muitas foram as questões que me colocaram. Muitas duvidas, muitos receios, poucas certezas. É claro que tenho receio, é claro que não sei como vai ser o futuro. Parece que não, mas tenho sentimentos. Sinto, e sinto muito. Mas tenho um lado de loucura e de inconsciência que me tornam consistente. Todos os meus projectos são convergentes. Têm algo em comum, que os unificam e que têm sempre a mesma direcção. Essa direcção só eu sei e não revelo. É o meu segredo. Mas nem é algo muito bem guardado ou de difícil acesso. O porquê de tudo isto, de todo este arco-íris constante, estende-se no tempo. É algo que ficará, depois de eu morrer. Para a Luz, pelo menos. 
"Naquela mesa" é uma das músicas que canto que melhor receptividade tem. O tema de Sérgio Bittencourt , traz um novo olhar sobre a mesa, como objecto. De nostalgia, neste caso. 
Mas, para mim, este objecto, comummente utilizado apenas com a finalidade prática no nosso quotidiano, é um pretexto. "Estar à mesa" é tempo. É partilha. É uma experiência única e irrepetível. É vida. É um dedicação. Neste sentido, o Gesta não é um restaurante comum. O Gesta é um local para se estar, para se conviver. Para partilhar sabores, sons, paladares, momentos onde os cinco sentidos são estimulados. É um experiêcia gastronómica e uma experiência cultural ao mesmo tempo porque enquanto se prova um prato tipicamente português como uma Posta à Mirandesa laminada, ou um Polvo à Lagareiro, está-se ao mesmo tempo a ouvir o que de melhor do Fado se faz no Porto. Sem grandes pretensões, abri este espaço a pensar em todos os meus amigos músicos, em todos os momentos que cruzaremos as nossas vidas, e desta forma, criaremos novas vidas, depois desta. O Gesta não é apenas um restaurante normal. O Gesta é um restaurante com uma sala de ser porque neste restaurante come-se gastronomia portuguesa. Come-se música. Come-se Vida. 
E isto, é impagável.



domingo, 10 de maio de 2020

Boa noite, Valentina

A ansiedade das esperas terminou hoje. 
Esperamos por ti, perdida entre esquinas. Esperamos por ti, amedrontada, mas recolhida por alguém que te tivesse encontrado e acolhido. Esperamos até por um resgate. Esperamos por ti, viva. Ansiosos que o pesadelo terminasse, como se fôssemos teus pais. Empáticos com o sofrimento de quem te ama, a sofrer por um futuro risonho mas que tardou a chegar. Esperamos pelas lágrimas de felicidade de alguém que gritasse ao longe:

- Está aqui! Encontrei a menina! Ela está bem!

Um país inteiro com o coração apertado, ansiosos por uma notícia tua. Mas como poderias? Esperamos por ti como se fôssemos nós os pais. Assim o julgámos. Mas os teus pais não esperavam por ti. 
Tiveste o azar fatal de não poderes confiar em quem te devia proteger: nos teus pais. No teu pai, que te deu a vida, e na mulher que ele escolheu para estar ao seu lado: para fazer também o papel de tua mãe. Tiveste tanto azar, Valentina. 
O pai não tem uma contribuição visceral como o tem a mãe. Não é umbilical a sua relação: é processual. É uma cadência que precisa de tempo para se estabelecer. É até explicável, definível. O pai não te amou desde sempre, desde que soube que ía ser pai. Ele habituou-se à ideia. Precisou de tempo. Foi-se convencendo. Com o tempo, foi imitando comportamentos do papel de "pai", mas sem o sentir de facto. Ora bem, um pai faz isto? Então vou fazer igual. Parecia um pai, de facto. Mas não era pai. Não podia ser pai, porque as suas decisões não era baseadas em amor total. Neste amor indefinível, totalitário, quase egoísta e redundante porque é um amor que só precisa dele próprio para subsistir. Um pai que não bebe deste amor pela filha, não pode ser pai. Só parece um pai. É um pai trôpego, manco. Encostado às opiniões alheias, manietado. Um fantoche manipulado pelo que vê os outros fazer. É um embriagado. Um boneco vazio de sentimento, convencido que convence e por isso, auto-convence-se. 
Se a este ser se juntar uma mulher de igual nível, o resultado só poderá ser desastroso. 
Tiveste tanto azar, minha doce Valentina. Podia ter sido diferente se a tua madraste fosse uma "boadrasta". Alguém que te acolhesse como se fosses sua. Que te ensinasse tudo o que ela tivesse de melhor. Ou pelo menos, que tivesse essa intenção. Alguém que te chamasse "filha de coração" e te explicasse o que isso significa. Uma boadrasta que te quisesse para sua família e que te contabilizasse na hora de tomar decisões. Era isso que merecias, meu amor. Em tua casa juntaram-se dois pólos negativos. Dois excrementos humanos. Duas amostras de "como-não-ser-pai-nem-mãe". Tiveste o azar de se reunirem na mesma parelha dois seres que se auto-masturbam na mesma linguagem de pus e esterco e não podemos imaginar o quanto já deves ter sofrido. Quanta confusão nessa cabecinha. Quantas dúvidas, quanto desespero em tão pouco tempo de vida. Onde estarás tu agora, minha querida Valentina? Que nome tão bonito que tu tens.

Sobra agora a tua mãe. Uma sombra da mulher que foi e que nunca voltará a ser igual. Com certeza, neste momento, a tua mãe é um resto. Uma sombra. Um resquício de mulher. Tal como o amor de mãe é indefinível também a dor de mãe o é. A tua vida não foi em vão, meu amor. E é isto que eu gostava de dizer à tua mãe, se pudesse. A tua vida não foi em vão. E a vida da tua mãe também não.

Boa noite, Valentina.

"As mulheres são fracas, as mães são fortes" - Provérbio norte-coreano


quarta-feira, 29 de abril de 2020

A dança em nós

A menina, apesar de gordinha e sisuda, tinha os mais maravilhosos pés para ballet. A curvatura do pé era tal que partia todas as pontas e, por isso, nunca conseguiu ser bailarina.

A outra menina não tinha curvatura no peito do pé. Não se conseguia erguer nas pontas, nem sequer pôr-se de pé. Mas tinha o mais belo pescoço, a postura mais leve, o ar mais elegante em palco. 

Passados estes anos, ainda dançam, discretas, frente a qualquer superfície que reflita a sua imagem.



29 Abr 20
Dia Mundial da Dança 

segunda-feira, 30 de março de 2020

O doce cheiro a caramelo

Meu amor,

fazes hoje 10 meses. Estava neste momento, há 10 meses atrás, contigo a meu lado, a barafustar com a enfermeira porque estava a morrer de sede e ela não me podia dar água sob pena de vomitar tudo, resultado da anestesia da cesariana. Meia zombie, com um olho aberto outro fechado, tal como hoje, meia zombie, com um olho aberto para o futuro, o do passado, fechado.
Comprei-te livros como prenda. Não sei que mundo te vou deixar. O que era certo ontem, já não é hoje e amanhã há-de voltar a mudar. Sinto-me a planar, sem saber onde pousar os pés porque tudo é areia movediça. Comprei-te livros, meu amor. Ainda é nos livros que mais confio para te deixar alguma sabedoria para aprenderes a planar, rente sobre as coisas: se precisares aterras, se não, continuas a voar sem te magoares. Dom Quixote nasceu com o nome de Alonso. Tu nasceste como Luz: quem te irás tornar? Irás percorrer o mundo como ele? Quem serão os teus moinhos a derrubar? Possas tu viver feliz porque num sonho parece que é onde já estamos a viver. Parece que vivemos dentro de um livro de Aldous Huxley. Escolhe viver dentro de um livro de Garcia Marquez.
Dei por mim a comer maçãs o dia todo. Acho que, inconscientemente, estou a poupar. Ouvi uma senhora na rádio a perguntar se se pode sentar na sua varanda sob o risco de apanhar com partículas infectadas dos tapetes sacudidos dos vizinhos.
Só o teu sorriso me distrai. Só o teu cheiro a caramelo me traz a "casa". Parabéns, meu amor. 10 meses a trazer luz ao mundo.

30/Mar/20
16h49

domingo, 15 de março de 2020

As filhas do vírus

Meu amor, minha Luz

escrevo-te acabada de me sentar no sofá, finalmente, depois de, juntas, termos passado um dia terrível. Escrevo-te porque já te sei no teu berço, a dormir tranquilamente, sem tosse. Escrevo-te como te escrevi as cartas que recebeste pelo correio e que permanecem fechadas até que saibas ler e as abras pelas tuas próprias mãos: com o resguardo do tempo e com a valorização do tempo.
O dia hoje começou bem cedo, pelas 8h30 da manhã, já tu contavas com 38.9 de febre. Liguei à tua pediatra mas como não me atendeu, imediatamente preparei-me para ir contigo ao hospital. Depois de uma semana de febres e tosses e idas a médicos, não podia permitir que este sofrimento te continuasse a invadir.
Estacionámos nas urgências, no mesmo lugar onde outra febre nos tinha levado numas madrugadas atrás. Como se uma repetição se iniciasse. Pediatra, 4º andar. A carta que já vinha de outra médica. Os enfermeiros que se derretem com a tua simpatia. Com os teus dentinhos. Com a tua luz. Fizemos um novo raio x, e foi como se um raio nos caísse em cima:

- Mãe, isto não está bonito. Vocês vão ter de ser transferidas para o S. João.

Senti-me desfalecer por dentro. Por não conseguir ver o limite daquelas palavras. O que queria dizer realmente? Tu permaneceste serena, igual a ti própria. Um farol numa noite escura.
Indicaram-nos um quarto com uma parede de vidro por onde pudemos observar todo o plano de desinfecção no caso de suspeita do novo corona virus.

- Mãe, já percebeu não já?

Já, já percebi. Só faltava pegar fogo aos locais onde nos tínhamos sentado. Passado algum tempo deixaram-nos sair pelas traseiras do hospital, com uma enfermeira a acompanhar-nos até ao nosso carro.

- As melhoras - disse ela.
- Obrigada.

A tua avó trouxe-nos ao hospital e tratou das papeladas iniciais enquanto te trocava a fralda, resguardadas no carro, de uma chuva molha-tolos, num dia tolo, num mundo de tolos. Uma chuva redundante e desnecessária portanto. Éramos tratadas à distância, mas com simpatia. Depois das perguntas, de nos tirarem a febre, fomos para a ala dos não-validados, apesar de ter estado em Madrid há umas semanas atrás. Sem sintomas e depois deste tempo todo, pelo que parece, não constituí uma probabilidade. Primeira vitória. Não tínhamos o vírus.
A médica que te viu encantou-se com o teu cabelo e com a tua serenidade.

-Tenho um de 10 meses mas é um pequeno terrorista. Era impossível ele estar esse tempo todo ao colo, tão calminho.

Sorri com ternura pensando na sorte que tinha em seres minha filha e não outra criança qualquer.
Em seguida, colheram o sangue da tua mão e ficámos horas à espera. Durante essas horas, consegui sempre calar o meu desespero interior. Em nenhum momento hesitei. Não cedi aos meus medos. Nem me lembrava deles. Sentia-me alerta, em posição canina de avançar contra qualquer vírus, contra qualquer doença que aparecesse. Sentia-me com uma força imensa e a tua serenidade dava-me ainda mais força. Eu alimentei-me da tua força vertical, da tua integridade no sofrimento, da tua coragem de carvalho: uma árvore que não se deixa abater. Se tu estás doente e não vais abaixo, não vou ser eu, a tua mãe, que vai. Tu obrigas-me a elevar-me.
Atravessámos o hospital para tentar comer alguma coisa na máquina das sandes, eram umas 17h. Um café directo nas veias. Tu, no entanto, não aguentaste a papinha e vomitaste. Foi este momento que mudou um pouco o teu diagnóstico: só te dariam alta quando conseguisses segurar o que comias.
Conhecemos a cigana e o seu filho com paralisia cerebral de 7 anos e corpo de 4, desempregada e sem ter quem a viesse buscar. O hospital, sem meios nem recursos para lhe resolver o problema, passou a solução para as mãos dos pacientes que, atentos, lhe ouviam a história:

- Fique com estes 30eur para o táxi, para voltar para casa.

33 anos, viúva, 5 filhos. A mais velha com 20 anos, o mais novo, este, com 7.

Meu amor, tenho medo de morrer e não termos tempo para nos conhecermos. Eu sei que tu não és minha, não me pertences. És do mundo. E mais certezas tenho quando vejo o mundo a interagir contigo. Gostava que soubesses olhar para as pessoas com olhos de ler por dentro. Não dos que leêm por fora, esses são fáceis de enganar. Gostava que fosses uma menina que interage com as pessoas livremente, sem preconceitos, nem pretensões ou julgamentos. Gostava que reconhecesses uma cigana pela cultura e musicalidade a dançar. E que soubesses facilitar a vida de uma jovem que, aos 33 anos, tem de carregar o filho de 7 porque ele não se mantém em pé e respira por uma sonda.
Passaram-se cerca de 7 horas. A tua infecção pulmonar está perto do fim, dizem-me . Mais dois dias, que não se pode fazer muito mais, que estas infecções têm-se estendido mais do que o normal e tal e tal e tal. Uma frustração.

Conduzo o carro da tua vovó que nos veio buscar, e rasgámos a noite escura que nos envolveu o dia todo, em direcção a casa. Quase a chegar, ao dar uma curva, deparo-me com um parque de estacionamento vazio e sombrio e, no meio dele, como que a palpitar, surge uma magnífica roulotte de farturas. Como uma zombie que acorda feliz, dirijo-me de imediato e peço farturas, churros de nutella, farturas com doce de ovos, enfim, tudo o que faz mal e não pediria noutra altura.
Por que é que te estou a contar isto, meu amor?
Porque passei o dia a lutar. Pronta para o combate. A resistir a cada machadada que a tua tosse provocava no meu coração e quando vi as cores da roulotte, as luzes coloridas da montra, a música que saía do aparelho de som, tudo isto a reluzir como um tesouro no meio de um parque escuro e decrépito, deixei que finalmente, as lágrimas me caíssem pela cara abaixo. Esta ironia explodiu a minha barragem, meu amor. Este contraste quebrou o meu gelo e derreteu-me no mais improvável lugar. Uma roulotte de farturas foi o gatilho que eu precisava para soltar toda a angústia que vivi no dia de hoje porque, no limite, no extremo dos extremos, isso poderia significar perder-te.
Gostava que soubesses gerir as tuas emoções para, pelo menos, teres tempo de chegar a casa e não te veres em situações embaraçosas onde tivesses de explicar por que razão começaste a chorar, como por exemplo, em frente a uma roulotte de farturas.
 Amo-te meu amor, minha paixão, minha "munheca" linda.
Saber-te a dormir descansada, em casa, protegida, junto a mim, é um pedaço de felicidade que se pudesse pendurava num fio de ouro ao pescoço.


15 de Março 2020
domingo
00.15

domingo, 26 de janeiro de 2020

a verdade das maçãs

Eu amava-te como amava as borboletas
Deixando-as ir mas sonhando com o jardim
a acordar pulverizado com o pó mágico
delas.

Odeio o pó: passar o dedo e deixar caminhos desunidos
no vidro riscado da mesa de cabeceira.


Eu amava-te como se amam os grandes escritores
Onde cada palavra é reinventada
papel higiénico, faca, sardas, pau.

Não suporto conhecer o outro lado do artista:
cuspe branco nos cantos da boca, mesquinhez no discurso.


Eu amava o teu sexo como se ama um professor
que forma a criança, o adolescente, o adulto.
Uma gerbera azul a florir na palma das minhas mãos.

As flores azuis do jarro são lindas mas já vão mortas.
Não terei tempo de as ver empalidecer.


Eu amava a tua boca como se ama o futuro,
as nossas línguas uniam-se em largos destinos
e eu afogava-me um bocadinho de cada vez.

A tua boca assimétrica é um quadro de Picasso.
Os espanhóis entediam-me.


Esperarei pelo tempo
recebendo as suas áridas descobertas
aceitando respostas sem ter questionado
sabendo, sem ter perguntado.
Esperarei pelo tempo das maçãs maduras
e pelo aroma doce da sua morte.



26 jan 20
4h25
Grammy's
Kobe

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Veias

Sento-me para escrever porque sinto que há algo para sair e que só ainda não encontrou o túnel de saída. Por isso, sento-me e permito-me. Abro "Autumn Leaves" porque costuma resultar. Geralmente vem sob a forma de lágrimas. Água que lava enquanto rola pela pele abaixo. Desta vez, porém, é diferente. Não choro. Há algo diferente. Talvez tenha surgido com o início do ano ou melhor, com o fim do ano retrasado. Onde antes chorava, hoje...não. Preciso de mais alguma distância para perceber o que quer isto dizer. Não me sinto morta. Pelo contrário, sinto a paisagem alterada. É também uma espécie de morte, talvez. Será? Mas ouço. Algo mexe cá dentro. Como um monstro gigante adormecido que de repente acorda e, por causa dos anos de hibernação, demora-se a erguer. Neste caso, o mostro são as placas tectónicas que constituem a minha personalidade. Sinto-as as rasgar e a desrasgarem-se umas das outras, criando um novo padrão como uma nova manta de retalhos.

Entrou agora o "Cinema Paradiso" com Chris Botti e Yo Yo Ma.

Nada. Ainda puxo da chávena de café com Love escrito num coração e sorvo um gole a dar algum tempo ao meu coração a ver se reage. Nada.

O som do mostro é o mesmo que o som do interior de um vulcão dias antes de explodir. Um som grave, uma espécie de rosnar mas sem a parte negativa. Será este o som do crescimento? Este ano começou: é novo e deve ser bom. Diferente, vai ser de certeza.

Sinto que não escrevi nada do que era suposto sair. Vou agora para estúdio e continuo com a veia entupida. Preciso de sangrar urgentemente. Temo que me vá esvair no pior momento possível. Costuma ser assim. Espero que este ano novo traga isto de diferente.



16,28/ 2 Jan 2019
"Emmanuel" Lucia Micarelli