terça-feira, 23 de outubro de 2012

Luto

Estou de luto.

Não pela morte
de alguém que partiu
mas de luto de mim própria

De alguma forma,
a pessoa que eu era ontem
por esta hora,
já não é esta que escreve.


"Tinha diante de mim o rei das trevas. O quão fora belo anjo de luz, hoje era feio. Espantei-me ao ver que tinha três caras em uma só cabeça. A cara da frente era vermelha,a da direita, amarelenta, e a da esquerda, negra como a fulígem"

Descrição do Inferno in Alighieri, Dante, A Divina Comédia




VIGÍLIA

Como o companheiro é morto,
todos juntos morreremos
um pouco.

O valor de nossas lágrimas
sobre quem perdeu a vida
não é nada.

Amá-lo, nesta tristeza,
é suspiro numa selva
imensa.

Por fidelidade recta
ao companheiro perdido,
que nos resta?

Deixar-nos morrer um pouco
por aquele que hoje vemos
todo morto.


Cecília Meireles


14h26/scriptorium

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A Bernardo

"O sol perguntou à lua" Não chega ouvir-te. Precisamos de te ver. Ver as narinas de touro e o olhar fulminante, nunca estás onde pareces estar. A quem és tu fiel? De onde te vem essa irresponsabilidade criativa onde três notas ganham o tamanho de uma sinfonia? Como se entra no túnel onde pareces entrar sempre que te concentras? E por que não conseguimos nós entrar? Já alguma vez encontraste, alguma vez e diz-me que sim por favor, esse êxtase vazio e sublime? Morreste, Bernardo! Valeu a pena? Há pianos onde estás, como disse o Abrunhosa? Como caíste, Bernardo? Esticaste-te? Tropeçaste? Espreitaste? Conseguiste ao menos tirar a fotografia? Podemos vê-la? A que sabe uma fotografia com cheiro a morte? O que deixas é maior que tu, mas só porque não te conhecemos. Somos o rei Minos numa Creta labiríntica: o medo que temos do Minotauro é igual ao medo que temos de aceitar que o sol perguntou à lua: logo vais aparecer? 20h28/a atravessar as cinco fases

quarta-feira, 25 de abril de 2012

aos toiros de todas as gerações

Neste dia vermelho / de pétalas arrancadas / onde os toiros / de cornos afiados / cospem ansiosos / e coçam-se. / Ai de quem abrir / agora / a vetusta cancela. / Seguram as velhas tábuas / o pavor primitivo / do primeiro grito / (e era o que bastava!) / Mortal-izam os toureiros / com olhos incandescentes / mas por trás das madeiras, / ainda. / Pressentem o cheiro do instável / da subida de degrau, / da escalada da mudança, / do abysmo branco. / Acenam-lhes os toureiros, / empertigados de rabos apertados, / com a verdadinha de hoje / (sentados sobre um prego) / "basta que chegue para mim e para os meus!" / cante-se sempre / a morte do primeiro toiro: / não faz, a mesma espada, cair dois toiros ao mesmo tempo 25/26 avr 2012/ 3.22

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

água

alguém disse que se resolvia com o tempo.
os dias vão passando, as horas, ao minuto. as emoções que tive contigo não se esvanecem por isso. há momentos tão densos que não há água que os lave da minha pele. horas há em que me apetece gritar e fechar os olhos com força para te voltar a ver, para dentro. água não há que leve pelo ralo da banheira, por muitos banhos que tome, este sufoco que a saudade me faz comprimir o peito. não há um local, uma forma de estar que me alivie da tortura de não te poder ver mais.
o tempo não resolve coisa nenhuma. o tempo tenta enganar a memória, mas é uma senhora a memória. lenta no seu caminhar e ágil quando quer esquecer de propósito.

quisesse eu que te esquecer fosse o seu propósito.

http://www.youtube.com/watch?v=OzrUs08-SWs


21h56/foz/palavras que não são minhas

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Heróis do Mar

se eu mergulhasse fundo e iniciasse a viagem submarina por mim adentro, iria perdendo a claridade da tona da água e tudo o que me era familiar, com a descida tornar-se-ía escuro e perigoso. será a intimidade individual perigosa? o que assustaria de início, a partir de certa altura, tornar-se-ía familiar e sistemático. mergulhar nos mares interiores e ultrapassar as correntes que nos afastam da luz de lá de cima é assustador e antagonicamente é sufocante. se chegasse ao fundo do mar e conseguisse passear por ele fora com as duas pernas, se aprendesse a respirar por guelras o que me era desconhecido passaria a ser a minha casa. até que ponto a minha condição humana não seria posta em causa?
se pudéssemos virar o nosso comportamento mundano para o exterior, até que ponto poderíamos alterar a vida das pessoas que nos rodeiam? o que é que eu posso fazer hoje pela próxima pessoa que eu encontrar pela frente, ainda que não a conheça?

vou experimentar mergulhar num mar nunca dantes navegado e lançar-me À Descoberta. Ser herói do meu mar e unir-me ao mar interior da próxima pessoa que eu encontrar À frente para formar um oceano. e se eu vivesse também nesse oceano juntamente com a pessoa com que me deparei? e se essa pessoa vivesse com a pessoa seguinte com a qual se deparou? este oceano de tantas águas misturadas seria universal mas a primeira gota seria portuguesa. esta gesta não é portuguesa, não lhe pertence por ser universal, mas cada portuguÊs tem este pingo de universalidade que lhe é inerente. ser portuguÊs é ser super homem: conseguem, aguentam, adaptam, resistem, ganham, criam, sobrevivem. ser portuguÊs é ser perverso por não jogar com as mesmas regras da morte e por subverter as regras da vida.

ser portuguÊs é mergulhar todos os dias e todos os dias aprender a respirar de uma forma nova.

00h22/heróis do mar

terça-feira, 20 de setembro de 2011

hino

- isto foi o que me pareceu ouvir:

"pudessem vocês saber que eu não estou de facto morto. estou a ver-te! como raio não se apercebem que eu não estou morto? isto também é novo para mim, caramba. aceito, que remédio, mas ajudem-me vocês também! eu não morri. ainda, pelo menos. ouço-te, Dinis! sei o que o teu irmão te está a dizer baixinho. ele continua preocupado com quem? ahh...dinis, dinis... tivesse ele a tua coragem. não me enganei quando te disse que fechei em chave de ouro. tens muito da tua mãe, mas também tens muito de mim. sempre ouvi os teus silêncios e percebi-os perfeitamente. nunca precisámos de palavras entre nós. sinto por cada um dos meus filhos que ainda não está tudo feito. a cada um dos teus irmãos, o trabalho não está completo, dinis. pudesses tu ouvir-me, meu filho. quero que saibas isto: se eu pudesse proclamar um seguidor, eras tu a quem eu confiaria o meu papel, filho. pudesses tu ouvir-me e saberias a pena que eu tenho de não ir a tempo de te dizer o quanto te amo, o quanto te admiro, o orgulho que tenho em ti, meu piruças. sempre tive. há um fosso entre nós e a tua boa disposição ajuda-nos a fechá-lo mas não é por mal, dinis. foi assim que fui educado, não me sei expressar de outra forma. e olha para a minha cara! até parece que me ouviste, dinis, vês o meu rosto pacífico? está tudo bem, filho, não estou a sofrer, estou vivo, estou aqui e estou sem dores. fica feliz por mim. pega-me na mão e não chores, pelo menos ainda. não é justo para mim e eu sei a pessoa justa que és. nisso sais a mim...

- foi isto. não sei se foi sonho se o que é que foi.



21h12/tasquinha

terça-feira, 26 de julho de 2011

A mentira maior

Faz hoje um ano.

Não é que os frutos sejam mais maduros de como os lembro, espremidos nos teus dedos e na forma como os levavas á boca. Faz hoje um ano mas não é por isso que corro mais lentamente na tua direcção. Este ano que passou não diminuiu a intensidade de luz com que acordo todos os dias que tu já não estás. Chegam-me laivos de ti nos sons que me entorpecem no ram-ram nos entretantos de vida que tu me atiraste. Faz hoje um ano que prostituo o meu tempo em mulheres tão vazias como eu e vendo ao desbarato dedicação e atenção em alguéns que não lhes reconheço sequer a voz.
Esta carta é para juntar á de ontem (porque o mail continuava vazio sem que ninguém soubesse de ti) , à de anteontem (quando entalei, sem querer, os gladíolos no elevador e destruí o meu único presente de aniversário para a tua mãe), à dos fins de semana (que a memória já mistura por nada ter que os diferencie).
Não é que a música já cá não entre. Ainda é um dos poucos canais onde consigo comunicar sem “talvez” ou “dependes”. Vá lá, tiveste a decÊncia de me deixar a música. Não sei se te odeie menos por isso. Mas é mentira, sabes que isso seria impossível: odiar-te era negar a mim próprio o direito de me amar. Continuo a errar; porém não é por isso que sou o erro. Não sou atormentado pela realidade porque ela não existe para mim. Eu não existo para ti,sequer. É o significado que lhe estou a atribuir que me mantém no teu encalço. Tu és a representação do amor maior. Não te iludas, meu amor. Não fiques cismada. Eu olho e vejo mas é porque me convenço. E chega-me.

Há neste tempo uma euforia de cores e rituais. Traz o calor vontades e desejos que vêm diluídos nas brisas de fim de tarde como uma poeira fina e que pousam nos cabelos e nos dentes das pessoas quando riem de coisas que não ririam numa qualquer outra altura. Imagino este pó de estrelas a escorrer num banho de luz pela tua pele abaixo e a vir pousar nas palmas das minhas mãos em forma de concha. Nunca quis perder um bocadinho que fosse de cada gesto teu. Sempre que te tinha à minha beira, e só falo assim porque sei o quanto achavas piada a esta expressão - à minha beira. Já não te tenho à minha beira. Nem sei quem te terá à beira, mas não é à minha. Os junquilhos que plantaste não duraram um mÊs. É só para que saibas. Para não ficares feliz. Não suporto a ideia de estares feliz. Quando deres por ela, voltas para mim e o caminho que percorro na tua direcção, fa-lo-ás tu, de frente para mim. Não vieste inventar nada. Há sempre um voltar ao sítio onde se foi feliz e é por isso que não me desespero. A gente encontra-se, de caminho. Abandonei a minha cidade há 15 anos e dou por mim ainda sentado em expressões como esta: de caminho

de caminho faço isso
vou de caminho, vou já

O prazer com que volto à minha língua é quente e reconfortante. Ela embala-me. Reduz, em expressões que já ninguém usa, o conhecimento absoluto de só quem passou é que sabe. Hasteio com gáudio o meu sotaque com que te cativei. Tenho arvorado no meu discurso, a força de uma raça que se recusou a calar. Eu sei que não fui eu quem te cativou, foi esta força de ser das minhas gentes. Devo agradecer a quem? Isto anda comigo, sempre. Ao contrário de ti, que te arrasto comigo: e és mais pesada ausente do que se estivesses de facto aqui.
O prazer de voltar a ti é o sacrifício de uma vida. É uma espera silenciosa e bizarra quase. Voltar a ti é um destino que eu decidi. Parece contraditório mas fiz de ti o meu capricho. O dizer “não” tem que ver com a pessoa que o diz. Não tem nada que ver comigo. E se assim foi, é porque naquela altura tu tiveste motivos próprios, só teus, para me dizeres que não. Tu não tens o dever de me divulgar as tuas razões, mas eu posso ficar magoado. E é por isso que te aguardo como o Tigre de Pablo Neruda ( http://www.youtube.com/watch?v=EwbVdXzm1bA ). As horas seguem e eu sigo com elas. Não te minto se te digo que a cada dia que passa, fica mais fácil. Não é mais fácil. Às vezes o peito comprime e dói tanto que só me apetece arrancar o coração com as próprias mãos e mesmo de ferida aberta, aliviar a dor. Não te minto se te digo que já me questionei se valerás a pena. Se vales a minha vida em troca mesmo sabendo que não és um resultado adquirido. Eu não sei se te voltarei a ver e aqui está a tua contínua vitória sobre mim. Se me pudesses ver neste momento, não me reconhecerias. A verdade é que ainda tremo à passagem de um pensamento teu. E se, por um lado, sou o tigre selvagem, a tua beleza enjaulou-me num abraço. Tens-me cativo por um beijo de despedida que, coitado de mim, não percebi que era para sempre. Mas só a ideia de te ver curvada pelo teu orgulho, rebaixada pelo arrependimento e com a palavra “desculpa” pendurada por um fio de saliva, alimenta a minha ira. Anula qualquer tremor de saudade. Deves-me isso. Deves-me uma vida de desespero. Deves-me uma vida arruinada e despedaçada. Quero-te ver a arfar de desespero. Quero-te ver apática perante a beleza do riso das pessoas que riem por rir. A verdadeira felicidade é ser feliz sem ter motivos. Hás-de ver a poeira mágica no ar e hás-de ser incapaz de lhe tocar. E por tudo isto, aguentarei. Velarei noite e dia, como o Tigre de Neruda, para te dizer que te perdoo.