Neste dia vermelho /
de pétalas arrancadas /
onde os toiros /
de cornos afiados /
cospem ansiosos /
e coçam-se. /
Ai de quem abrir /
agora /
a vetusta cancela. /
Seguram as velhas tábuas /
o pavor primitivo /
do primeiro grito /
(e era o que bastava!) /
Mortal-izam os toureiros /
com olhos incandescentes /
mas por trás das madeiras, /
ainda. /
Pressentem o cheiro do instável /
da subida de degrau, /
da escalada da mudança, /
do abysmo branco. /
Acenam-lhes os toureiros, /
empertigados de rabos apertados, /
com a verdadinha de hoje /
(sentados sobre um prego) /
"basta que chegue para mim e para os meus!" /
cante-se sempre /
a morte do primeiro toiro: /
não faz, a mesma espada, cair dois toiros ao mesmo tempo
25/26 avr 2012/ 3.22
quarta-feira, 25 de abril de 2012
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
água
alguém disse que se resolvia com o tempo.
os dias vão passando, as horas, ao minuto. as emoções que tive contigo não se esvanecem por isso. há momentos tão densos que não há água que os lave da minha pele. horas há em que me apetece gritar e fechar os olhos com força para te voltar a ver, para dentro. água não há que leve pelo ralo da banheira, por muitos banhos que tome, este sufoco que a saudade me faz comprimir o peito. não há um local, uma forma de estar que me alivie da tortura de não te poder ver mais.
o tempo não resolve coisa nenhuma. o tempo tenta enganar a memória, mas é uma senhora a memória. lenta no seu caminhar e ágil quando quer esquecer de propósito.
quisesse eu que te esquecer fosse o seu propósito.
http://www.youtube.com/watch?v=OzrUs08-SWs
21h56/foz/palavras que não são minhas
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Heróis do Mar
se eu mergulhasse fundo e iniciasse a viagem submarina por mim adentro, iria perdendo a claridade da tona da água e tudo o que me era familiar, com a descida tornar-se-ía escuro e perigoso. será a intimidade individual perigosa? o que assustaria de início, a partir de certa altura, tornar-se-ía familiar e sistemático. mergulhar nos mares interiores e ultrapassar as correntes que nos afastam da luz de lá de cima é assustador e antagonicamente é sufocante. se chegasse ao fundo do mar e conseguisse passear por ele fora com as duas pernas, se aprendesse a respirar por guelras o que me era desconhecido passaria a ser a minha casa. até que ponto a minha condição humana não seria posta em causa?
se pudéssemos virar o nosso comportamento mundano para o exterior, até que ponto poderíamos alterar a vida das pessoas que nos rodeiam? o que é que eu posso fazer hoje pela próxima pessoa que eu encontrar pela frente, ainda que não a conheça?
vou experimentar mergulhar num mar nunca dantes navegado e lançar-me À Descoberta. Ser herói do meu mar e unir-me ao mar interior da próxima pessoa que eu encontrar À frente para formar um oceano. e se eu vivesse também nesse oceano juntamente com a pessoa com que me deparei? e se essa pessoa vivesse com a pessoa seguinte com a qual se deparou? este oceano de tantas águas misturadas seria universal mas a primeira gota seria portuguesa. esta gesta não é portuguesa, não lhe pertence por ser universal, mas cada portuguÊs tem este pingo de universalidade que lhe é inerente. ser portuguÊs é ser super homem: conseguem, aguentam, adaptam, resistem, ganham, criam, sobrevivem. ser portuguÊs é ser perverso por não jogar com as mesmas regras da morte e por subverter as regras da vida.
ser portuguÊs é mergulhar todos os dias e todos os dias aprender a respirar de uma forma nova.
00h22/heróis do mar
terça-feira, 20 de setembro de 2011
hino
- isto foi o que me pareceu ouvir:
"pudessem vocês saber que eu não estou de facto morto. estou a ver-te! como raio não se apercebem que eu não estou morto? isto também é novo para mim, caramba. aceito, que remédio, mas ajudem-me vocês também! eu não morri. ainda, pelo menos. ouço-te, Dinis! sei o que o teu irmão te está a dizer baixinho. ele continua preocupado com quem? ahh...dinis, dinis... tivesse ele a tua coragem. não me enganei quando te disse que fechei em chave de ouro. tens muito da tua mãe, mas também tens muito de mim. sempre ouvi os teus silêncios e percebi-os perfeitamente. nunca precisámos de palavras entre nós. sinto por cada um dos meus filhos que ainda não está tudo feito. a cada um dos teus irmãos, o trabalho não está completo, dinis. pudesses tu ouvir-me, meu filho. quero que saibas isto: se eu pudesse proclamar um seguidor, eras tu a quem eu confiaria o meu papel, filho. pudesses tu ouvir-me e saberias a pena que eu tenho de não ir a tempo de te dizer o quanto te amo, o quanto te admiro, o orgulho que tenho em ti, meu piruças. sempre tive. há um fosso entre nós e a tua boa disposição ajuda-nos a fechá-lo mas não é por mal, dinis. foi assim que fui educado, não me sei expressar de outra forma. e olha para a minha cara! até parece que me ouviste, dinis, vês o meu rosto pacífico? está tudo bem, filho, não estou a sofrer, estou vivo, estou aqui e estou sem dores. fica feliz por mim. pega-me na mão e não chores, pelo menos ainda. não é justo para mim e eu sei a pessoa justa que és. nisso sais a mim...
- foi isto. não sei se foi sonho se o que é que foi.
21h12/tasquinha
terça-feira, 26 de julho de 2011
A mentira maior
Faz hoje um ano.
Não é que os frutos sejam mais maduros de como os lembro, espremidos nos teus dedos e na forma como os levavas á boca. Faz hoje um ano mas não é por isso que corro mais lentamente na tua direcção. Este ano que passou não diminuiu a intensidade de luz com que acordo todos os dias que tu já não estás. Chegam-me laivos de ti nos sons que me entorpecem no ram-ram nos entretantos de vida que tu me atiraste. Faz hoje um ano que prostituo o meu tempo em mulheres tão vazias como eu e vendo ao desbarato dedicação e atenção em alguéns que não lhes reconheço sequer a voz.
Esta carta é para juntar á de ontem (porque o mail continuava vazio sem que ninguém soubesse de ti) , à de anteontem (quando entalei, sem querer, os gladíolos no elevador e destruí o meu único presente de aniversário para a tua mãe), à dos fins de semana (que a memória já mistura por nada ter que os diferencie).
Não é que a música já cá não entre. Ainda é um dos poucos canais onde consigo comunicar sem “talvez” ou “dependes”. Vá lá, tiveste a decÊncia de me deixar a música. Não sei se te odeie menos por isso. Mas é mentira, sabes que isso seria impossível: odiar-te era negar a mim próprio o direito de me amar. Continuo a errar; porém não é por isso que sou o erro. Não sou atormentado pela realidade porque ela não existe para mim. Eu não existo para ti,sequer. É o significado que lhe estou a atribuir que me mantém no teu encalço. Tu és a representação do amor maior. Não te iludas, meu amor. Não fiques cismada. Eu olho e vejo mas é porque me convenço. E chega-me.
Há neste tempo uma euforia de cores e rituais. Traz o calor vontades e desejos que vêm diluídos nas brisas de fim de tarde como uma poeira fina e que pousam nos cabelos e nos dentes das pessoas quando riem de coisas que não ririam numa qualquer outra altura. Imagino este pó de estrelas a escorrer num banho de luz pela tua pele abaixo e a vir pousar nas palmas das minhas mãos em forma de concha. Nunca quis perder um bocadinho que fosse de cada gesto teu. Sempre que te tinha à minha beira, e só falo assim porque sei o quanto achavas piada a esta expressão - à minha beira. Já não te tenho à minha beira. Nem sei quem te terá à beira, mas não é à minha. Os junquilhos que plantaste não duraram um mÊs. É só para que saibas. Para não ficares feliz. Não suporto a ideia de estares feliz. Quando deres por ela, voltas para mim e o caminho que percorro na tua direcção, fa-lo-ás tu, de frente para mim. Não vieste inventar nada. Há sempre um voltar ao sítio onde se foi feliz e é por isso que não me desespero. A gente encontra-se, de caminho. Abandonei a minha cidade há 15 anos e dou por mim ainda sentado em expressões como esta: de caminho
de caminho faço isso
vou de caminho, vou já
O prazer com que volto à minha língua é quente e reconfortante. Ela embala-me. Reduz, em expressões que já ninguém usa, o conhecimento absoluto de só quem passou é que sabe. Hasteio com gáudio o meu sotaque com que te cativei. Tenho arvorado no meu discurso, a força de uma raça que se recusou a calar. Eu sei que não fui eu quem te cativou, foi esta força de ser das minhas gentes. Devo agradecer a quem? Isto anda comigo, sempre. Ao contrário de ti, que te arrasto comigo: e és mais pesada ausente do que se estivesses de facto aqui.
O prazer de voltar a ti é o sacrifício de uma vida. É uma espera silenciosa e bizarra quase. Voltar a ti é um destino que eu decidi. Parece contraditório mas fiz de ti o meu capricho. O dizer “não” tem que ver com a pessoa que o diz. Não tem nada que ver comigo. E se assim foi, é porque naquela altura tu tiveste motivos próprios, só teus, para me dizeres que não. Tu não tens o dever de me divulgar as tuas razões, mas eu posso ficar magoado. E é por isso que te aguardo como o Tigre de Pablo Neruda ( http://www.youtube.com/watch?v=EwbVdXzm1bA ). As horas seguem e eu sigo com elas. Não te minto se te digo que a cada dia que passa, fica mais fácil. Não é mais fácil. Às vezes o peito comprime e dói tanto que só me apetece arrancar o coração com as próprias mãos e mesmo de ferida aberta, aliviar a dor. Não te minto se te digo que já me questionei se valerás a pena. Se vales a minha vida em troca mesmo sabendo que não és um resultado adquirido. Eu não sei se te voltarei a ver e aqui está a tua contínua vitória sobre mim. Se me pudesses ver neste momento, não me reconhecerias. A verdade é que ainda tremo à passagem de um pensamento teu. E se, por um lado, sou o tigre selvagem, a tua beleza enjaulou-me num abraço. Tens-me cativo por um beijo de despedida que, coitado de mim, não percebi que era para sempre. Mas só a ideia de te ver curvada pelo teu orgulho, rebaixada pelo arrependimento e com a palavra “desculpa” pendurada por um fio de saliva, alimenta a minha ira. Anula qualquer tremor de saudade. Deves-me isso. Deves-me uma vida de desespero. Deves-me uma vida arruinada e despedaçada. Quero-te ver a arfar de desespero. Quero-te ver apática perante a beleza do riso das pessoas que riem por rir. A verdadeira felicidade é ser feliz sem ter motivos. Hás-de ver a poeira mágica no ar e hás-de ser incapaz de lhe tocar. E por tudo isto, aguentarei. Velarei noite e dia, como o Tigre de Neruda, para te dizer que te perdoo.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
gota
tenho um homem-poema sentado, atrás de mim, nas minhas costas. é um poema feito homem, feito de fumo, sentado numa poltrona, no canto do quarto. não se mexe mas olha-me fixamente e com um sorriso pincelado. não se percebe bem os extremos do corpo. esfumam-se as mãos cruzadas nos joelhos e não tem pés porque o corpo evapora-se a partir das canelas para baixo. esse homem é quem me acompanhou toda a minha vida, enquanto fui gente. é o homem que não tosse quando lhe digo que "quero ter um filho hoje" mas me pergunta a seguir se eu quero que ele vá para a catequese, quando tiver idade. o meu homem-poema assemelha-se ao pessoa de "o ano da morte de ricardo reis". o meu homem tem sempre um poema para me responder. o meu homem-poema tem olhos azuis e impacienta-se com a vida quando não me tem no seu campo de visão, quando não me vÊ. tenho uma nuvem feita gente atrás de mim, no canto mais escuro do quarto e sempre que me volto para o ver, ele desaparece. por isso, desisti de olhá-lo de frente: sei que existe mas não vejo. é aquilo que eu amo, que desejo viver com. sou-lhe de uma fidelidade canina e creio no meu sentimento como se fosse um provérbio popular.
mas
vezes há, em que eu gostaria de o ver de frente. de lhe tocar. de lhe sentir o cheiro. de trespassá-lo com a minha língua. de o fazer gente como eu fui.de o dar á luz. vezes há em que o meu amor se cala e mesmo acompanhada com o meu homem-poema, eu me sinto sozinha.vezes há em que eu precisava de lhe ouvir a voz da garganta e não a voz da mente. vezes há em que eu almejo partilhar os meus pequenos sucessos e apenas tenho um saco de plástico do lidl insuflado de vento. não te minto e confesso: vezes há em que duvido, em que te questiono. dá-me por vezes, a raiva e estaco o meu olhar na poltrona antiga porque sei que não vais aparecer e tento convencer-me disso mesmo, mas não há tempo suficiente.
2'26/foz/
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Dia 3 de Fátima
Fátima não resolve, revela.
O que parece bom, revela-se melhor ainda. O que já se adivinhava, revela-se pior. Fátima foi translúcida, de uma clarividência que cegou por instantes de tão óbvia. Deve ter sido esta a ofuscação dos milagres. E eu juro que acredito em milagres, porque os senti e continuo a sentir todos os dias. Os milagres dão-se através de indivíduos anónimos que, no último dia das suas forças, esquecem-se das suas próprias dores e pegam noutros peregrinos e ajudam-nos e transportam-nos até aos portões da ágora católica. Os milagres dão-se todos os dias, através de nobres indivíduos aturdidos de dores nos músculos mas que continuam a cantar e a puxar por outros anónimos para não desistirem das suas demandas. Os milagres dão-se em alturas de aperto de sede, mas onde restam forças para orar em 15 pequenos altares, à margem das ruas, em declives que convidam a desistir.
A última etapa (Pombal-Fátima) revelou-se a mais bucólica e por isso mesmo, a mais bonita de percorrer. Atravessando bosques Blair Witch Project, à luz de lanternas rarefeitas e conversas frescas e inusitadas onde ficou claro que o "mundo é mesmo um ovo", passou-se uma noite de gelo a rasgar a pele. Dormitei mais que uma vez, encostada ao capô de um automóvel estacionado. Cedo, deparámos com um altar-montra onde cada grupo de peregrinos deixava uma recordação pessoal.
O almoço, sentados em roda num coreto de aldeia, foi o momento alto de toda a minha jornada. Presenciei o verdadeiro milagre de Fátima porque vi a beleza simples da Arte incarnada na voz de alguns membros do grupo. Individualmente e, principalmente, por não terem consciência disso mesmo, eles tocaram ao de leve o dorso da Beleza Transcendente de Deus. E, se realmente há mesmo um Deus, eu apontaria aquele o momento em que ele deixou que os humanos O vissem. Porque Ele manifestou-se espontâneamente, sem que O procurassem, O provocassem ou Lhe dessem promessas a cumprir. Deus apenas foi. Ali, naquele lugarejo perdido no caminho para Fátima, em letras de fados e de canções populares, cantados quase à desgarrada. As lágrimas soltaram-se-me e caíam desamparadas na minha t-shirt, manchando-a. Só viu Deus quem estava de fora. Os intervenientes não tiveram noção disso e é pena. Porque procuram Deus desalmadamente no exterior de si e não perceberam que fazem parte de um todo, grande muito grande e belo. O meu Deus chama-se Arte, porque é aí que eu encontro Beleza, Harmonia, Elevação, Sublimação. É a Arte que me galvaniza e que me excita. Ninguém é mais religioso que eu por o antropónimo "Deus" ser diferente. Escusem-se a ostracizar-me por as palavras das minhas orações não serem as mesmas. Não me convencem. Não têm um canal de comunicação mais directo que o meu, lamento. Desengane-se quem se julga mais "apto". Contudo, entendo agora porque, ainda assim, se continua a ir a Fátima, ano após ano.
Entrar no santuário foi, antes de mais, um alívio. O grupo demonstrou essa alegria nos beijos e abraços que trocou entre si, nos "parabéns" e "sucessos" desejados. Homens e mulheres arrastavam-se, de joelhos, entre distâncias intermináveis. Espantou-me os avisos legíveis pelas paredes do templo principalmente de manutenção de ordem pública. Comprei velas castanhas e fininhas que coloquei na pira. O desejo que peço todos os dias e todos os dias me é concedido: saúde para mim, para a minha família. Amar e ser amada e o desejo de gerar a minha própria família. Não será atendido meu pedido agora que o disse em voz alta?
Conheci a Igreja-Mor que, pelo seu tamanho grandioso, mais parecia uma sala de espectáculos, muito melhor que a maior parte das salas que conheço. Amei o mural em talha dourada e o Cristo portentoso que pairava sobre o altar. Não me arrepiei.
Fátima prolongou-se pelos dias vindouros. Precisei de digerir Fátima, mas isso até foi o mais rápido de digerir. O resto não.
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