quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

A capacidade de chorar

 Acho que estou a perder a capacidade de chorar. Não sei se é da idade. Não sei se pode passar pelo processo de envelhecer o que é uma pena porque até estou a gostar de envelhecer. Não estava preparada era para isto: não consigo chorar. Não sei se isto também vos acontece. Tenho o motivo, tenho o sentimento, sinto a vontade, entendo o por quê mas depois...nada. Parece que falta a conexão ocular e não consigo chorar.

É tão redondo como isto: estou a perder a capacidade de chorar, de transformar em água as coisas que estão lá no fundo do meu ser, aquelas que já só saem com água de limpeza. Já não sobe. Para os sensíveis, este processo de transformar em água as nossas emoções é algo que nos faz falta. Enquanto não chorar, o assunto não passa. Pelo menos, comigo sempre foi assim. 

"Estou a precisar de chorar", dizia eu para resolver a questão. Agora continuo a dizer isto, mas já nada acontece. Estou seca por dentro.

Não sei se serão as machadadas da vida. Das frustrações, quero eu dizer. Sei lá o que quero dizer. Também me sinto a perder a poesia. Nem sei se me devo preocupar.

Preciso urgentemente de chorar mas como posso fazer isso? Que músicas devo ouvir? Ou que livros devo ler? Algum filme, talvez? 

Paralelamente, caem-me lágrimas nos momentos mais insólitos: numa entrevista, num balcão de atendimento, numa consulta médica ou no seguimento de alguma coisa que a minha filha me diz. Se às vezes quero chorar e não consigo, por outro lado, há momentos em que nem tenho tempo para reprimir as lágrimas: elas soltam-se e rolam rosto abaixo. 

Há uma esquizofrenia lacrimal que não entendo nem controlo.  Também há muita coisa que não entendo nem controlo. Cada vez sou mais desapegada. Cada vez mais, menos. 

Só queria conseguir chorar.


1,43 / casa / no silêncio

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

O Mundo da Luzinha, porquê?

    Depois de uma Luz, onde o nosso mundo se recurva e vira do avesso, surgiu a necessidade de convergir a experiência da maternidade com tudo o que estava relacionado com o "velho mundo". Apesar de me sentir mãe da Luz muito antes de ela nascer, eu não me comportava como tal. Quando a Luz nasceu, as minhas rotinas alteraram-se de todas as maneiras, mas os meus gostos, não. Eu não podia deixar de ser eu na sua totalidade. A minha essência tinha de se manter: a minha música, as minhas letras, o gosto pela pedagogia, a minha arte. E como fundir agora todos estes gostos antigos sem me perder, sem me recalcar mas, ao mesmo tempo, sem beliscar em nada o lado maternal que tomara conta de mim? 

Tive de unir todos estes pontos:

Nasceu "O Mundo da Luzinha".

    A minha proposta é a de levar a mãe ou o pai, o professor, o educador ou simplesmente o curioso a debater-se com novas perspectivas que ampliem a experiência musical de forma a torná-la mais rica e mais completa, em prol do bem estar da criança e da sua estimulação psico-emocional. Não sendo a música unicamente uma experiência estética, é relevante nos tempos em que vivemos, consciencilizarmo-nos sobre as possibilidades da música como recurso pedagógico. Porque a música nasce connosco desde os tempos ancestrais. Porque todos temos música dentro de nós, começando pelo bater do coração. O importante é continuar a dar-lhe voz. É recuperar essa musicalidade que vamos perdendo à medida que crescemos e canalizá-la: fazer da música uma ferramenta ao alcance de todos. A música, como experiência psicológica, pode, na linha temporal,  modelar a personalidade da criança e ampliar-lhe a capacidade sensível e sensitiva. A música pode apresentar-se como escultora de personalidade da criança. E não é isso que queremos para os nossos filhos?


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Urge a esperança

 São 21.30 

Noite. Depois de jantar. Jantar esse quente. Podia ter sido frio, mas foi quente. Sentada com a minha família, com os meus cães, nas paredes que pintei, nas paredes que me amparam todos os dias na rotina do dia-a-dia, sem sequer me lembrar delas. Sem lhes dar a importância e o relevo que têm. Tenho uma casa. Tenho um lar. E apesar de tudo, tenho um lar.

Estes dias tive a sorte de poder visitar duas instituições que trabalham com crianças. Fiquei maravilhada com as meninas e os meninos que encontrei. Não é que estivesse à espera de outra coisa que não o que me deparei. mas a verdade é que fiquei surpreendida. Algo se moveu dentro de mim. Algo me desnorteou. talvez por ter levado a minha filha comigo. Não houve estranheza rigorosamente nenhuma, nem de um lado de do outro. Com os adultos, isto nem sempre acontece. Mas também não foi o meu caso. Todas as técnicas que conheci são seres especiais que consigo identificar à primeira. São muito mais que técnicas. São além disso, porque sem perder essa vertente da pragmaticidade, de resolver, de dar soluções, acrescentam o valor da humanidade. Um não ocultou o outro. Não perderam a capacidade de chorar. Não perderam a capacidade de se emocionar, por muitos anos que sejam confrontadas com situações terríveis. Parece que, às crianças, tudo ganha maior dimensão.

Afastei-me ligeiramente e absorvi, de longe, tudo o que cabia nos meus olhos. Olhei para a Luz. Fiz um esforço para me esquecer que era minha filha e "misturei-a" naquele grupo. Nada a distinguia. Nada fazia da Luz mais especial do que era. A minha surpresa vem agora. É que cada uma daquelas meninas e meninos tinham luz própria. Eram tão especiais. Tinham tanta individualidade em si. Consigo-os distinguir um a um, Mesmo agora que já passaram dias. Tenho tanta vontade de os abraçar a todos com tanta força. De os apertar contra o meu peito. Queria tanto entregar-lhes algo que os fizesse feliz. É tão importante que estas crianças soubessem que há outras possibilidades, outros mundos, outras rotinas, outras felicidades. Queria tanto que eles tivessem um vendaval de felicidade. Que ficassem submersos num mar de alegria, que se engasgassem de tanta emoção. Estes meninos têm de saber o que é isso. Se não tiverem estas experiências é a mesma coisa que lhes estejam a ser negados momentos de vida. E aqui, falamos de esperança. É urgente a esperança. 



a ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=KB6wVyMzdcQ



quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Gesta, porquê?

Abri o "Gesta".
- Estás maluca!
- Numa altura destas?!
- Não tens medo? Será uma boa ideia?
Muitas foram as questões que me colocaram. Muitas duvidas, muitos receios, poucas certezas. É claro que tenho receio, é claro que não sei como vai ser o futuro. Parece que não, mas tenho sentimentos. Sinto, e sinto muito. Mas tenho um lado de loucura e de inconsciência que me tornam consistente. Todos os meus projectos são convergentes. Têm algo em comum, que os unificam e que têm sempre a mesma direcção. Essa direcção só eu sei e não revelo. É o meu segredo. Mas nem é algo muito bem guardado ou de difícil acesso. O porquê de tudo isto, de todo este arco-íris constante, estende-se no tempo. É algo que ficará, depois de eu morrer. Para a Luz, pelo menos. 
"Naquela mesa" é uma das músicas que canto que melhor receptividade tem. O tema de Sérgio Bittencourt , traz um novo olhar sobre a mesa, como objecto. De nostalgia, neste caso. 
Mas, para mim, este objecto, comummente utilizado apenas com a finalidade prática no nosso quotidiano, é um pretexto. "Estar à mesa" é tempo. É partilha. É uma experiência única e irrepetível. É vida. É um dedicação. Neste sentido, o Gesta não é um restaurante comum. O Gesta é um local para se estar, para se conviver. Para partilhar sabores, sons, paladares, momentos onde os cinco sentidos são estimulados. É um experiêcia gastronómica e uma experiência cultural ao mesmo tempo porque enquanto se prova um prato tipicamente português como uma Posta à Mirandesa laminada, ou um Polvo à Lagareiro, está-se ao mesmo tempo a ouvir o que de melhor do Fado se faz no Porto. Sem grandes pretensões, abri este espaço a pensar em todos os meus amigos músicos, em todos os momentos que cruzaremos as nossas vidas, e desta forma, criaremos novas vidas, depois desta. O Gesta não é apenas um restaurante normal. O Gesta é um restaurante com uma sala de ser porque neste restaurante come-se gastronomia portuguesa. Come-se música. Come-se Vida. 
E isto, é impagável.



domingo, 10 de maio de 2020

Boa noite, Valentina

A ansiedade das esperas terminou hoje. 
Esperamos por ti, perdida entre esquinas. Esperamos por ti, amedrontada, mas recolhida por alguém que te tivesse encontrado e acolhido. Esperamos até por um resgate. Esperamos por ti, viva. Ansiosos que o pesadelo terminasse, como se fôssemos teus pais. Empáticos com o sofrimento de quem te ama, a sofrer por um futuro risonho mas que tardou a chegar. Esperamos pelas lágrimas de felicidade de alguém que gritasse ao longe:

- Está aqui! Encontrei a menina! Ela está bem!

Um país inteiro com o coração apertado, ansiosos por uma notícia tua. Mas como poderias? Esperamos por ti como se fôssemos nós os pais. Assim o julgámos. Mas os teus pais não esperavam por ti. 
Tiveste o azar fatal de não poderes confiar em quem te devia proteger: nos teus pais. No teu pai, que te deu a vida, e na mulher que ele escolheu para estar ao seu lado: para fazer também o papel de tua mãe. Tiveste tanto azar, Valentina. 
O pai não tem uma contribuição visceral como o tem a mãe. Não é umbilical a sua relação: é processual. É uma cadência que precisa de tempo para se estabelecer. É até explicável, definível. O pai não te amou desde sempre, desde que soube que ía ser pai. Ele habituou-se à ideia. Precisou de tempo. Foi-se convencendo. Com o tempo, foi imitando comportamentos do papel de "pai", mas sem o sentir de facto. Ora bem, um pai faz isto? Então vou fazer igual. Parecia um pai, de facto. Mas não era pai. Não podia ser pai, porque as suas decisões não era baseadas em amor total. Neste amor indefinível, totalitário, quase egoísta e redundante porque é um amor que só precisa dele próprio para subsistir. Um pai que não bebe deste amor pela filha, não pode ser pai. Só parece um pai. É um pai trôpego, manco. Encostado às opiniões alheias, manietado. Um fantoche manipulado pelo que vê os outros fazer. É um embriagado. Um boneco vazio de sentimento, convencido que convence e por isso, auto-convence-se. 
Se a este ser se juntar uma mulher de igual nível, o resultado só poderá ser desastroso. 
Tiveste tanto azar, minha doce Valentina. Podia ter sido diferente se a tua madraste fosse uma "boadrasta". Alguém que te acolhesse como se fosses sua. Que te ensinasse tudo o que ela tivesse de melhor. Ou pelo menos, que tivesse essa intenção. Alguém que te chamasse "filha de coração" e te explicasse o que isso significa. Uma boadrasta que te quisesse para sua família e que te contabilizasse na hora de tomar decisões. Era isso que merecias, meu amor. Em tua casa juntaram-se dois pólos negativos. Dois excrementos humanos. Duas amostras de "como-não-ser-pai-nem-mãe". Tiveste o azar de se reunirem na mesma parelha dois seres que se auto-masturbam na mesma linguagem de pus e esterco e não podemos imaginar o quanto já deves ter sofrido. Quanta confusão nessa cabecinha. Quantas dúvidas, quanto desespero em tão pouco tempo de vida. Onde estarás tu agora, minha querida Valentina? Que nome tão bonito que tu tens.

Sobra agora a tua mãe. Uma sombra da mulher que foi e que nunca voltará a ser igual. Com certeza, neste momento, a tua mãe é um resto. Uma sombra. Um resquício de mulher. Tal como o amor de mãe é indefinível também a dor de mãe o é. A tua vida não foi em vão, meu amor. E é isto que eu gostava de dizer à tua mãe, se pudesse. A tua vida não foi em vão. E a vida da tua mãe também não.

Boa noite, Valentina.

"As mulheres são fracas, as mães são fortes" - Provérbio norte-coreano


quarta-feira, 29 de abril de 2020

A dança em nós

A menina, apesar de gordinha e sisuda, tinha os mais maravilhosos pés para ballet. A curvatura do pé era tal que partia todas as pontas e, por isso, nunca conseguiu ser bailarina.

A outra menina não tinha curvatura no peito do pé. Não se conseguia erguer nas pontas, nem sequer pôr-se de pé. Mas tinha o mais belo pescoço, a postura mais leve, o ar mais elegante em palco. 

Passados estes anos, ainda dançam, discretas, frente a qualquer superfície que reflita a sua imagem.



29 Abr 20
Dia Mundial da Dança 

segunda-feira, 30 de março de 2020

O doce cheiro a caramelo

Meu amor,

fazes hoje 10 meses. Estava neste momento, há 10 meses atrás, contigo a meu lado, a barafustar com a enfermeira porque estava a morrer de sede e ela não me podia dar água sob pena de vomitar tudo, resultado da anestesia da cesariana. Meia zombie, com um olho aberto outro fechado, tal como hoje, meia zombie, com um olho aberto para o futuro, o do passado, fechado.
Comprei-te livros como prenda. Não sei que mundo te vou deixar. O que era certo ontem, já não é hoje e amanhã há-de voltar a mudar. Sinto-me a planar, sem saber onde pousar os pés porque tudo é areia movediça. Comprei-te livros, meu amor. Ainda é nos livros que mais confio para te deixar alguma sabedoria para aprenderes a planar, rente sobre as coisas: se precisares aterras, se não, continuas a voar sem te magoares. Dom Quixote nasceu com o nome de Alonso. Tu nasceste como Luz: quem te irás tornar? Irás percorrer o mundo como ele? Quem serão os teus moinhos a derrubar? Possas tu viver feliz porque num sonho parece que é onde já estamos a viver. Parece que vivemos dentro de um livro de Aldous Huxley. Escolhe viver dentro de um livro de Garcia Marquez.
Dei por mim a comer maçãs o dia todo. Acho que, inconscientemente, estou a poupar. Ouvi uma senhora na rádio a perguntar se se pode sentar na sua varanda sob o risco de apanhar com partículas infectadas dos tapetes sacudidos dos vizinhos.
Só o teu sorriso me distrai. Só o teu cheiro a caramelo me traz a "casa". Parabéns, meu amor. 10 meses a trazer luz ao mundo.

30/Mar/20
16h49

domingo, 15 de março de 2020

As filhas do vírus

Meu amor, minha Luz

escrevo-te acabada de me sentar no sofá, finalmente, depois de, juntas, termos passado um dia terrível. Escrevo-te porque já te sei no teu berço, a dormir tranquilamente, sem tosse. Escrevo-te como te escrevi as cartas que recebeste pelo correio e que permanecem fechadas até que saibas ler e as abras pelas tuas próprias mãos: com o resguardo do tempo e com a valorização do tempo.
O dia hoje começou bem cedo, pelas 8h30 da manhã, já tu contavas com 38.9 de febre. Liguei à tua pediatra mas como não me atendeu, imediatamente preparei-me para ir contigo ao hospital. Depois de uma semana de febres e tosses e idas a médicos, não podia permitir que este sofrimento te continuasse a invadir.
Estacionámos nas urgências, no mesmo lugar onde outra febre nos tinha levado numas madrugadas atrás. Como se uma repetição se iniciasse. Pediatra, 4º andar. A carta que já vinha de outra médica. Os enfermeiros que se derretem com a tua simpatia. Com os teus dentinhos. Com a tua luz. Fizemos um novo raio x, e foi como se um raio nos caísse em cima:

- Mãe, isto não está bonito. Vocês vão ter de ser transferidas para o S. João.

Senti-me desfalecer por dentro. Por não conseguir ver o limite daquelas palavras. O que queria dizer realmente? Tu permaneceste serena, igual a ti própria. Um farol numa noite escura.
Indicaram-nos um quarto com uma parede de vidro por onde pudemos observar todo o plano de desinfecção no caso de suspeita do novo corona virus.

- Mãe, já percebeu não já?

Já, já percebi. Só faltava pegar fogo aos locais onde nos tínhamos sentado. Passado algum tempo deixaram-nos sair pelas traseiras do hospital, com uma enfermeira a acompanhar-nos até ao nosso carro.

- As melhoras - disse ela.
- Obrigada.

A tua avó trouxe-nos ao hospital e tratou das papeladas iniciais enquanto te trocava a fralda, resguardadas no carro, de uma chuva molha-tolos, num dia tolo, num mundo de tolos. Uma chuva redundante e desnecessária portanto. Éramos tratadas à distância, mas com simpatia. Depois das perguntas, de nos tirarem a febre, fomos para a ala dos não-validados, apesar de ter estado em Madrid há umas semanas atrás. Sem sintomas e depois deste tempo todo, pelo que parece, não constituí uma probabilidade. Primeira vitória. Não tínhamos o vírus.
A médica que te viu encantou-se com o teu cabelo e com a tua serenidade.

-Tenho um de 10 meses mas é um pequeno terrorista. Era impossível ele estar esse tempo todo ao colo, tão calminho.

Sorri com ternura pensando na sorte que tinha em seres minha filha e não outra criança qualquer.
Em seguida, colheram o sangue da tua mão e ficámos horas à espera. Durante essas horas, consegui sempre calar o meu desespero interior. Em nenhum momento hesitei. Não cedi aos meus medos. Nem me lembrava deles. Sentia-me alerta, em posição canina de avançar contra qualquer vírus, contra qualquer doença que aparecesse. Sentia-me com uma força imensa e a tua serenidade dava-me ainda mais força. Eu alimentei-me da tua força vertical, da tua integridade no sofrimento, da tua coragem de carvalho: uma árvore que não se deixa abater. Se tu estás doente e não vais abaixo, não vou ser eu, a tua mãe, que vai. Tu obrigas-me a elevar-me.
Atravessámos o hospital para tentar comer alguma coisa na máquina das sandes, eram umas 17h. Um café directo nas veias. Tu, no entanto, não aguentaste a papinha e vomitaste. Foi este momento que mudou um pouco o teu diagnóstico: só te dariam alta quando conseguisses segurar o que comias.
Conhecemos a cigana e o seu filho com paralisia cerebral de 7 anos e corpo de 4, desempregada e sem ter quem a viesse buscar. O hospital, sem meios nem recursos para lhe resolver o problema, passou a solução para as mãos dos pacientes que, atentos, lhe ouviam a história:

- Fique com estes 30eur para o táxi, para voltar para casa.

33 anos, viúva, 5 filhos. A mais velha com 20 anos, o mais novo, este, com 7.

Meu amor, tenho medo de morrer e não termos tempo para nos conhecermos. Eu sei que tu não és minha, não me pertences. És do mundo. E mais certezas tenho quando vejo o mundo a interagir contigo. Gostava que soubesses olhar para as pessoas com olhos de ler por dentro. Não dos que leêm por fora, esses são fáceis de enganar. Gostava que fosses uma menina que interage com as pessoas livremente, sem preconceitos, nem pretensões ou julgamentos. Gostava que reconhecesses uma cigana pela cultura e musicalidade a dançar. E que soubesses facilitar a vida de uma jovem que, aos 33 anos, tem de carregar o filho de 7 porque ele não se mantém em pé e respira por uma sonda.
Passaram-se cerca de 7 horas. A tua infecção pulmonar está perto do fim, dizem-me . Mais dois dias, que não se pode fazer muito mais, que estas infecções têm-se estendido mais do que o normal e tal e tal e tal. Uma frustração.

Conduzo o carro da tua vovó que nos veio buscar, e rasgámos a noite escura que nos envolveu o dia todo, em direcção a casa. Quase a chegar, ao dar uma curva, deparo-me com um parque de estacionamento vazio e sombrio e, no meio dele, como que a palpitar, surge uma magnífica roulotte de farturas. Como uma zombie que acorda feliz, dirijo-me de imediato e peço farturas, churros de nutella, farturas com doce de ovos, enfim, tudo o que faz mal e não pediria noutra altura.
Por que é que te estou a contar isto, meu amor?
Porque passei o dia a lutar. Pronta para o combate. A resistir a cada machadada que a tua tosse provocava no meu coração e quando vi as cores da roulotte, as luzes coloridas da montra, a música que saía do aparelho de som, tudo isto a reluzir como um tesouro no meio de um parque escuro e decrépito, deixei que finalmente, as lágrimas me caíssem pela cara abaixo. Esta ironia explodiu a minha barragem, meu amor. Este contraste quebrou o meu gelo e derreteu-me no mais improvável lugar. Uma roulotte de farturas foi o gatilho que eu precisava para soltar toda a angústia que vivi no dia de hoje porque, no limite, no extremo dos extremos, isso poderia significar perder-te.
Gostava que soubesses gerir as tuas emoções para, pelo menos, teres tempo de chegar a casa e não te veres em situações embaraçosas onde tivesses de explicar por que razão começaste a chorar, como por exemplo, em frente a uma roulotte de farturas.
 Amo-te meu amor, minha paixão, minha "munheca" linda.
Saber-te a dormir descansada, em casa, protegida, junto a mim, é um pedaço de felicidade que se pudesse pendurava num fio de ouro ao pescoço.


15 de Março 2020
domingo
00.15

domingo, 26 de janeiro de 2020

a verdade das maçãs

Eu amava-te como amava as borboletas
Deixando-as ir mas sonhando com o jardim
a acordar pulverizado com o pó mágico
delas.

Odeio o pó: passar o dedo e deixar caminhos desunidos
no vidro riscado da mesa de cabeceira.


Eu amava-te como se amam os grandes escritores
Onde cada palavra é reinventada
papel higiénico, faca, sardas, pau.

Não suporto conhecer o outro lado do artista:
cuspe branco nos cantos da boca, mesquinhez no discurso.


Eu amava o teu sexo como se ama um professor
que forma a criança, o adolescente, o adulto.
Uma gerbera azul a florir na palma das minhas mãos.

As flores azuis do jarro são lindas mas já vão mortas.
Não terei tempo de as ver empalidecer.


Eu amava a tua boca como se ama o futuro,
as nossas línguas uniam-se em largos destinos
e eu afogava-me um bocadinho de cada vez.

A tua boca assimétrica é um quadro de Picasso.
Os espanhóis entediam-me.


Esperarei pelo tempo
recebendo as suas áridas descobertas
aceitando respostas sem ter questionado
sabendo, sem ter perguntado.
Esperarei pelo tempo das maçãs maduras
e pelo aroma doce da sua morte.



26 jan 20
4h25
Grammy's
Kobe

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Veias

Sento-me para escrever porque sinto que há algo para sair e que só ainda não encontrou o túnel de saída. Por isso, sento-me e permito-me. Abro "Autumn Leaves" porque costuma resultar. Geralmente vem sob a forma de lágrimas. Água que lava enquanto rola pela pele abaixo. Desta vez, porém, é diferente. Não choro. Há algo diferente. Talvez tenha surgido com o início do ano ou melhor, com o fim do ano retrasado. Onde antes chorava, hoje...não. Preciso de mais alguma distância para perceber o que quer isto dizer. Não me sinto morta. Pelo contrário, sinto a paisagem alterada. É também uma espécie de morte, talvez. Será? Mas ouço. Algo mexe cá dentro. Como um monstro gigante adormecido que de repente acorda e, por causa dos anos de hibernação, demora-se a erguer. Neste caso, o mostro são as placas tectónicas que constituem a minha personalidade. Sinto-as as rasgar e a desrasgarem-se umas das outras, criando um novo padrão como uma nova manta de retalhos.

Entrou agora o "Cinema Paradiso" com Chris Botti e Yo Yo Ma.

Nada. Ainda puxo da chávena de café com Love escrito num coração e sorvo um gole a dar algum tempo ao meu coração a ver se reage. Nada.

O som do mostro é o mesmo que o som do interior de um vulcão dias antes de explodir. Um som grave, uma espécie de rosnar mas sem a parte negativa. Será este o som do crescimento? Este ano começou: é novo e deve ser bom. Diferente, vai ser de certeza.

Sinto que não escrevi nada do que era suposto sair. Vou agora para estúdio e continuo com a veia entupida. Preciso de sangrar urgentemente. Temo que me vá esvair no pior momento possível. Costuma ser assim. Espero que este ano novo traga isto de diferente.



16,28/ 2 Jan 2019
"Emmanuel" Lucia Micarelli


domingo, 22 de setembro de 2019

Eu não sou bonita

Não sintas, por favor, que este texto é uma negação ao que me disseste. Não tenho a pretensão de o julgar ou escrutinar. Sinto, no entanto, a necessidade de te responder (porque assim, é a mim que respondo).

Eu não sou bonita. E digo-te porquê:

Quando me olhas nos olhos, não são olhos que tu vês. É o sol de laranja a ser chupado pela savana ardente de África.
Quando me beijas a pele, ainda que não a sintas, é a canela que te sabe.
Quando me acaricias o cabelo longo, é no dorso suave e saudoso do teu cavalo que pousas a mão
Quando me beijas, é na manga doce que me penetras os lábios
Quando me seguras nas ancas, seguras nas mãos as ancas parturientes de um antílope que tremem à passagem do seu filho bebé 
Quando tens na palma das tuas mãos abertas, pingos de suor e saliva, é um pedaço de chuva quente que caiu daquele céu improvável de Angola
Quando ouves a minha voz, é o canto de uma aldeia inteira que tu ouves
Quando me vês ir embora, é a dança ritualista, uma oração entre o teu deus e o deles, que acompanhas rápido, através dos meus passos
Quando eu não estou, cai a saudade de uma África ausente que teima em não te esquecer.

Eu não sou bonita. Não é a mim que tu amas. Na verdade, tu nunca me viste. Sou o que tu queres ver, mas não eu.

Sou feita de placas tectónicas que vão umas contra as outras, cá por dentro. Isso não é bonito de se ver. É grotesco. E no dia em que me digas:

-hoje, és bonita

eu saberei que o meu coração despedaçado finalmente, curou.


ao meu dandy favorito



quinta-feira, 18 de julho de 2019

a benção derramada



Apodreço sempre que não alimento
o meu amor por ti que nasceu de um arco-íris.
porque já existias
a cada dia que somei à tua ainda ausência.

de ruína em ruína
onde nasceram
os arbustos que alimentaram as tuas vacas
miséria
de auroras eléctricas e verdes
onde me enches o quarto com o teu lado bom

abunda o azul na monotonia das horas somadas
que multiplicarás
até talvez
a uma outra vida.

escutarei de pele arrepiada
cada arrastar de madeira
quando o chão será apenas uma lenda.

e sempre que me lançarem sementes,
é pelas tuas que o meu corpo chamará
e cada ausência tua
será uma benção derramada,
um totoloto que não será levantado,
uma boca cosida,
os olhos, leitos secos de
paisagens moribundas
que o tempo não completa.

sei que existes
mas isso não me chega.

cresce
numa abundância de leite derramado
a saudade de um futuro unido
mas que ficará rachado no céu
por um raio
por um capricho de um deus qualquer.

a  minha pequena buda ditosa,
é mais que a luz
porque até a noite se ilumina à sua passagem
e as estrelas empalidecem perante o seu sorriso.

1,48
casa
com L.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

La La Land ou a origem de um milagre

sou cinco pontas de dedos e os restos de ideias e memórias. sobram-me as rugas na testa e nem o sorriso está desbloqueado, porque tenho o rosto encostadoao teu crânio. estás deitada no meu peito, estendida pelo corpo abaixo com os braços abertos em posição de quem confia, de quem não tem medo nem abysmos. deixas-me a possibilidade de entrar na tua La La Land, de te cheirar essa tua impressão digital a que toda gente chama cabelo (porque tenho o nariz enterrado nesta relva negra e perfumada, como se acabada de cortar numa manhã de orvalho). deixas-me a mão direita livre para poder escrever. o meu corpo bloqueado para ti. não ouso mexer-me, não quero que sintas a minha aflição de não ser capaz de te chegar. subiste o nível. obrigas-me a ser mais saudável. mais forte. mais sábia. guias-me para ser maior, ainda que proporcionalmente, abra cada vez mais o receio de não te chegar. e se não te chegar, meu amor? e se tudo o que sou e que tenho não for suficiente para despoletar o teu potencial? és uma missão. uma responsabilidade: dar-te as ferramentas para te saberes desenvencilhar neste mundo. e se não tiver as ferramentas ideais para ti? e se não te souber entender? e se ficar aquem daquilo que poderias ter sido?

vieste não se sabe de onde. não se sabe como. a tua origem é desconhecida. tanto que chamei por ti e agora que chegaste parece que sempre cá estiveste. o espaço que preencheste, como uma peça de tétris, parece-me agora mais que previsível, testado e aprovado. ainda estou a tentar perceber como tudo aconteceu mas creio que nunca vou perceber de facto.

o momento em que te trouxeram para junto de mim, cinzenta e visceral, materializada num ser (porque os milagres precisam de ser vistos para se saber que é um milagre) foi o momento onde a minha cabeça esvaziou. nada me preparou para aquele momento. e, de facto, por trabalhar com arte e poesia, talvez pudesse eventualmente já ter passado por momentos assim, que me aproximassem do transcendental, da galvanização. mas de facto, nada me preparou para ti. e com o olhar muito aberto preso na luz do bloco operatório, eis o que consegui balbuciar:

- podia morrer neste momento


12,14
24 Junho 2019
casa, a ouvir:
https://www.youtube.com/watch?v=oTN7xO6emU0&list=RDBbgEbWaLNAE&index=2

quarta-feira, 5 de junho de 2019

A morte nascida

Tarde de hoje no cemitério.
Faz hoje uma semana que estava a entrar em trabalho de parto. 

O sentido de reposição que se torna inevitável ascender cá para fora. De uma inevitabilidade que me faz escrever quando há tanto tempo não o fazia. Nem sempre o "faz sentido" desencadeia num resultado. Às vezes, deixa-se estar quieto, só a fazer sentido, mas sem sentido prático. E faz sentido: neste mundo tão sem sentido e tão pouco prático, onde medimos a nossa imortalidade na quantidade de "presentes" que se asseguram a cada like. 

Há 36 anos que conhecia o mesmo rosto: as mesmas rugas, o mesmo cabelo branco, os lóbulos repuxados pelo peso dos brincos de ouro. Os olhos azuis vidrados por onde eram tricotadas as mais belas golas de vestidos de comunhão. O Verdegar e o Vira, a Cana Verde e o Malhão cantados no falsete mais agudo. O maior amor pelo Rodrigo e pela Mariana. 

"Oh mulher estás tão gorda!
Estava a brincar..."

Uma pessoa nunca morre de facto. Deixa-se ficar ano mundo dos vivos, encostada a uma expressão, a uma peça de tricot:

"Minha Liínha!"

A Lindinha era o que sempre foi. Nunca mudou. Tenho-a no meu pensamento com a mesma imagem desde que a conheço. Nunca me lembrei que pudesse deixar de estar. Nunca tal me passou pela cabeça. 

Rodrigo, meu amor, não há nada para dizer. Não há consolo possível. Não consigo sair da tua imagem, encostado às grades, desesperado de dor, desamparado. Do Dinho , de um estoicismo doentio que não lhe conhecia.

Depois voltar a casa, para os braços da Luz, numa montanha russa de emoções. Faz hoje uma semana estava a entrar num trabalho que mudou a minha vida para sempre. Sinto no entanto que só faltava ela. A peça que se encaixou, sem esforço, que sempre fez parte, só ainda não tinha chegado. A Luz vai conhecer a Lindinha: a cada peça de tricot que lhe mostre, há-de aprender a amar o que é feito com as mãos, como as brancas mãos enrugadas, unhas compridas com ligeiras saliências ao longo da unha, a pele ligeiramente manchada. A Luz há-de conhecer a Lindinha porque, de facto, há um legado que se prolifera nas gerações que venham. 

Nascer e morrer é a mesma coisa. Um existe no outro. Morro, logo nasço a seguir. 
Preciso de estar morta para nascer.   

00,31
4f para 5f
5 para 6 Junho 2019
casa
Luz a dormir

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Primeira dança

Uniu-se, incerta.
Juntou o seu corpo a um corpo que não conhecia. não era a primeira vez mas obrigava-se sempre a continuar.
as decepções também ajudam a perceber que há mundo para além do mundo maior. nesse caso, se apenas conhecia um corpo e ele desaparecera, também era justo pensar que não era por isso que todos os corpos desapareceriam da face da terra.
obrigou-se a continuar. Voltou a unir-se, incerta. de novo o suor. de novo o cheiro. nova camisa, novo tecido. novo respirar. nova respiração. novo arfar. novo gingar. nova suspensão. suspensão nova. aquilo não era novo. era a parte de um todo que já só existia em forma de nuvem, de lembrança feliz. deixou-se ficar. permitiu-se aspirar de pulmões inchados, e olhos fechados, aquela parte de um todo tão maior mas tão morto. entregou-se como se entrega uma virgem ao primeiro namorado: acreditando que é para sempre.

não falaram. não se conheciam e não estava ali para fazer amigos.
as bacias unidas. as coxas juntas com vontade própria, e elas sim, num diálogo adolescente desenfreado e de curiosidade. quatro coxa intercaladas a falar uma por cima da outra:

como te chamas?
estás a sentir o que eu sinto?
é tão raro!
só me aconteceu uma vez...
nem sabia que era possível
e o que quer dizer?
dançamos outra?

aquele era diferente. soube-o no primeiro acorde. fechou os olhos porque o exterior não se coadunava com o movimento interior. os rostos suados e unidos numa urgência de boca, de línguas, de saliva. fechou os olhos por despeito. fechou os olhos como uma traidora. como se assim o crime fosse menos grave. os sexos não se tocavam mas o amor estava ali, todo feito na primeira música. o amor que suporta o mundo e que o faz avançar numa loucura decepcionante. o único motivo por que vale a pena morrer de amor.
dançaram três danças seguidas porque a moral a isso permitia. não trocaram nomes, nem contactos. afastou-se numa despedida fria e impetuosa, um pouco triste e cruel mas nas suas veias voltou a correr sangue e com ele, vida. ah! mas o corpo voltou a dar de si e isso não podia negar. 

Sentiu. Pela primeira vez em muito tempo, o corpo saiu da sua letargia, não estava morto. Mas sair da morte implicava voltar a correr riscos de viver e com isso atrever-se a ser feliz.  E por isso, foi-se embora para nunca mais o ver.


para a Susana Lima


domingo, 14 de janeiro de 2018

Pastelaria

1

Anda pela vida como quem folheia um catálogo La Redoute. Há gente a mais e pessoas a menos. Sente-se inserido. Feliz, a saber que não morreria por excesso. O que vem, vem sempre por bem. Mediano na medição de grandes aventuras cardíacas. Só na cama se excede, pelo gozo de deixar a marca positiva. Como no ginásio, frente aos halteres, onde escolhe o peso acima só para dizer-se que pode. Não envelhece porque não quer respostas. No primeiro dia que se questione, então aí sabe que começou o declínio.

2

Dez minutos num silêncio continuado que lhe mudou a vida. Não a tivera visto e hoje em dia estaria na cama, descansado a dormir, agarrada ao amor daquela vida.

3

Entra no carro com o rádio a passar o hit do momento. Fecha a velha porta, recente na altura. Pensava que não ía durar para sempre. Sente-se apanhado. Tenta perceber o que tem diante de si. Não pode. Não consegue. Aquilo era outra coisa. O que quer que fosse. Mas uma coisa outra, assombrosa.

4

"O que te disse ele? Achas que gostou de mim." Que interessa? O corpo a reflectir. Os músculos a queixar. O primeiro acto consumado e o encore que tardava em chegar. Jantaram porque tinham de fazer alguma coisa no entretanto e a boa educação dizia que não se devia faltar a compromissos de família. A segunda foi no segundo. Paredes brancas testemunharam mortes sucessivas.

5

Dois olhos: um para cada lado. Não se viu no meio que é onde se está. A balança a fazer batota e foi a memória que ganhou.

6

"Tu não és mulher, não podes ver"

"Arrasto-me contigo até à morte...por favor"

A liberdade é pavorosa. A responsabilidade do amor e de tomar conta de um coração que não é nosso. A memória só diz o que lhe apraz. Não é correcta com a pessoa. Deixa-se ficar no mesmo sítio e desfez-se o sonho. Tão pouco lhe pesava o coração de pedra.

7

A farinha do pão é a mesma. As massas unem-se num encontro de fusão sem penetrados nem penetrantes. As mãos do sábio pasteleiro são grossas como templos e fluidos como sombras, perpetuadas em pão fresco, quente, húmido e com a terrível vontade de nunca parar de comer, estas mãos que fazem e desfazem. Esticam e encolhem, unem e separam.

8

Chegaram de mãos dadas na terra que era dela. E então no abismo do tempo, sacudiram-se e do lençol branco fez-se a manta e da manta fez-se o sudário.

9

Acordou a meio da noite, sozinho na cama e na vida. Surpresa de um sonho que não contava. Premonição. O telemóvel piscava e tremia junto ao peito e um resquício, um fantasma a desvanecer-se no fundo da parede do quarto.

10

O pasteleiro adicionou água. Depois o açúcar. E ele veio à tona da água e morreu.

11

Kundera falou da memória e de como por vezes um simples gesto aviva todo um mundo que já foi esquecido. Neste caso, foi o cheiro. O cheiro inesquecível do cabelo suado. Febre feliz de um conto de fadas onde, no final da noite, o príncipe deixa a princesa para dançar com as outras meninas do baile.

12

Escreveu-lhe no Outono, final de tarde e de vida. Sentado na cadeira da cozinha, as palavras saíam-lhe em vómitos. A folha do caderno era como um saco de boxe. Um colo que o abraçava quando já todos tinham saído de casa. Disse-lhe:

"Escrevo-te agora porque dão-me seis meses a um ano e preciso de tirar esta coisa, esta dor que me esventra e me tira o ar. O meu coração está nos pés. O meu peso é cimento. O meu corpo curvado termina num fio de lágrimas que gotejam esta folha de papel... tanto e não sei que te diga. A minha vida foi silêncio desde que me fui embora. Ao fugir de ti, fugi de mim e talvez por isso esta maldita doença que me corrói as entranhas. Quando a cortina se abrir perante os meus olhos cansados quero que saibas que foi a tua imagem que vi quando nasceram os meus filhos. Também foi o teu nome que ouvi de todas as vezes que me casei. Que te segui como um cão de fila, escondido nas esquinas, sem coragem. Quando o pano descer, espero finalmente chegar à paz plena de me conseguir perdoar por não ter lutado mais um bocadinho."



14 para 15
04:37 para 38

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Medição

As lágrimas
cobriram o fundo da taça de vidro
que pintaste à mão.

Formou-se uma ligeira onda
e como uma criança,
rodei a taça de modo que também as paredes
ficassem mergulhadas
no teu abandono.

Nunca medi lágrimas
mas acho que me tiravam a sede
numa noite quente de Havana.


19.20 /
10 Janeiro morto 2018


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Quando um cresce


O buda redondo que está à nossa frente murmura-me o nome de cada homem  que ainda terei na minha cama. Parece-me que não viverei tempo suficiente para saber o nome de todos mas o deus que me guia é o pequeno, o outro, o das coisas que cabem na palma da mão e não tenho a philos  suficiente para o contradizer.
Saímos do monumento com a sensação que lá deixámos alguma coisa. O tempo cá fora é suado e esforçado. É necessário empurrá-lo para conseguirmos passar. Custa a descer os pulmões.
Não nos olhámos nos olhos. Evitámo-nos. Sabemos que tudo vai acabar se houver algum canal que o propicie. Se não cruzarmos os olhos, não temos de falar (ainda que estivesses a meu lado).Tanto que dizer que nem é preciso dizer nada. A distância que nos aproxima é a mesma que vem por via das dúvidas. Vá-se lá entender.
Aproximo-me da velha fonte e mergulho o meu rosto, confessionário de saberes e paixões que tu não deixas, até o fundo me aparecer roxo e nublado  como o pequeno buda.



5'44 / Miranda do Corvo

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

The Square - de dentro para fora



Fui ver este filme sem qualquer tipo de expectativa. Uma ideia vaga de alguém a deambular num restaurante em tronco nu. Nada mais.
 "The Square" é um filme escrito e dirigido por Ruben Ostlund e ganhou a Palme de Ouro este ano. Isto eu não sabia quando fui ver mas entendo agora. Uma luta constante, durante todo o filme, entre o riso sufocado e o grotesco.  Ostlund põe o dedo na ferida no que toca à hipocrisia e ao cinismo. Valores universais como o sentido de comunidade ou a solidariedade genuina, sem contrapagamentos são cinicamente revelados. Mais do que uma vez senti a minha alma a virar do avesso devagarinho, numa só cena, percorrendo em escassos segundos que me transportaram de um lado da alma, ao outro oposto. Comecei por sentir uma coisa e passado pouquíssimo tempo, já sentia o contrário. A cena da performance no jantar de gala ficará para sempre incrustada em mim. Aquilo que começa por ser uma performance artística de um actor com comportamento simiesco, desenrola-se para uma experiência artística que traz à tona o reflexo verdadeiro dos intervenientes, esbatendo os limites entre intervenientes, obra de arte e vida real. O nó no estômago e a suspensão respiratória. O cinismo posto a descoberto num protagonista antagónico. O outro lado da coisa.
A arte questionada. Poderão montes de areia espalhados numa sala serem tidos como arte? E um amontoado de cadeiras? Onde começa e onde acaba?
A polémica de uma criança sueca, branca, loira, olho azul, dentro de um suposto quadrado de segurança, no porto de abrigo, e como a explosão desta criança vai criar polémica. E se fosse negra? E se fosse muçulmana? Haveria polémica sequer? Aqui estão os confrontos.
"Christian" surge como um anti-herói porque, na tentativa de fazer o correcto, o outro lado...ah, o outro lado. A personagem da criança a quem acusa de ser ladrão e que angustiadamente perdemos o rasto, antevendo obviamente o pior.
E claro...Bobby McFerrin! Saudades de revisitar este monstro da música na sua interpretação do Avé Maria de Gounod.


Sinto que o filme continua a exercer em mim, ainda ao dia de hoje. Ainda lá estou, ainda não acabou o filme.

https://www.youtube.com/watch?v=zKDPrpJEGBY

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Denovação


Re tornar. Re viver. Re mexer. Re fazer. Re modificar. Re lembrar. Re virar.

e sair algo parecido?
- Não acredito nisto.

Sigo nos contornos da linha de cada R e embora a cabeça do R seja por definição circular e infinita, a certo momento, essa cabeça redonda desagua em duas pernas que a sustentam. Pernas que estão ligadas ao chão como duas raízes de carvalho que entram pelo chão adentro e não se permitem mover. Há um novo caminho, um novo pathos. Não se pode re coisa nenhuma. Não é possível voltar onde se parou e continuar o percurso como se não houvesse acontecido nada. As mãos que fizeram,  já não são estas que fazem. O tempo é axiomático e nessa certeza está deitada a inevitabilidade da mudança. Não encarar esta certeza é adiar a angústia da novidade. É não aceitar que já não se conhece a pessoa. Que mudou. Que já não é a mesma. Que o tempo a beijou (como beijou também) e que por isso, a pele está agora beijada. Não se pode desbeijar.

Suspeito de quem re. De quem tenta re. Que mude a etimologia! Caso volte, então que vá com a certeza que a única coisa em comum é ter o mesmo contexto coisal. Que as personagens até poderão ser as mesmas. Mas a peça de teatro com certeza, já não.

Então que não se re!

Proponho a abolição de todas as palavras começadas por re. Só porque isso não existe. Não é possível re. Não está de acordo com a verdade.

Sugiro o prefixo denovar. Não pretende voltar ao ponto onde se parou. Não pretende mexer no que está ido. sabe-se que está passado. Agora, no presente, pegar nos mesmos ingredientes e fazer um bolo novo.
Saber que já se tentou antes e que não resultou. Vamos denovar-nos?

Há lá algo mais verdadeiro?

17'53 / casa / a ouvir isto: https://www.youtube.com/watch?v=eXssvtOFTLM